VII Zacarias

Bêbado, pé amputado. Na cadeira de rodas, se leva todos os dias para o bar.

Agora pode beber até morrer

(que sabe que não tem mais o que perder)

            E Zacarias se encontra com Dario

(que acha que não tem mais o que perder)

            Dentro de um bar todos estão indefesos. Assim, não custa a Zacarias se aproximar de Dario (ou aquele que Darío fosse naquele dia), com jeito, como quem só quer uma dose de cachaça e, para isso, tem de levemente importunar outro freguês que certamente pode pagar a tal pinga.

            Dario poderia aprumar-se diante da Olivetti e datilografar algo mais ou menos assim:

 

            No bar surgiu uma mulher magra e negra, sempre no balcão, bebendo como e mais que um homem até – ela, que era ele e ao mesmo tempo era a ex-namorada de Pernalonga, vendia maconha. A dita vivia de papo com um sujeito numa cadeira de rodas (faltava-lhe o pé), que um dia (ou noite, como a honestidade implora no verso) cismou de meter-me à companhia. Paguei-lhe uma cachaça e um tanto ríspido, mas delicado, tratei de enxotá-lo.

            Mas o homem é deficiente e me pediu que o levasse para casa. E ele também disse que tinha maconha. Ora, sou filho de Deus e levei o camarada. E o papo foi bom.

 

            Donde se verifica que um homem pode romantizar a coisa toda da vida pra se improvisar um sentido que satisfaça. Satisfação mitológica em menor grau, Zacarias manifesta-se como mentor. O esfarrapado como agente de recuperação: ponto ganho, o afundado cava ainda mais no fundo do poço; se é impossível subir, então provocará a ira da Terra – despertará um vulcão. Ou sairá na China.

            Dario optou pelos dois.

 

            Zacarias fala, afetado: – Você não me ache só um bêbado. Estou acabado assim, mas não é porque sou um bêbado em fim de carreira, não. Bem, talvez isso, também. Mas perdi a perna não foi por gota ou diabetes, como esses clichês ambulantes por aí. Perdi a perna em um acidente de bicicleta.

 

            Incomodado, Dario revê o novo colega. Decide excluir o último parágrafo até que seja capaz de encontrar o tom certo para Zacarias. Todos os detalhes são importantes, embora, honestamente, o homem datilografando não se importasse muito com isso. Para Dario, tanto fazia como o homem se parecia, se tinha dentes ou não, se assoprava palavras anestesiadas pelo álcool através de uma espessa barba ou se simplesmente vivia amortecendo os rumos que a vida lhe pregara no álcool.

            Não fazia diferença. Só se preocupava em compor o texto de tal forma porque tinha uma audiência. Para ele tanto fazia se era Zacarias, um abajur ou outro objeto inanimado que desse ao seu alter-ego literário as pistas para o prosseguimento da história.

            De fato, era o que acabaria fazendo:

 

            – Dá-rrrrrio – disse-me Zacarias, caprichando no r brando.

            – É Dario. Sem acento.

            – Uruguá.

            – Vuturuá.

            – Você tem mais cara de Uruguá.

            – O que significa?

            – O que significa Vuturuá?

            – O cume do monte. Tupi-guarani, como Uruguá.

            – Caracol, Dá-rrrrio. Uruguá quer dizer caracol. Você tem mais cara de Uruguá.

            O papo já começava a cansar quando chegamos na porta da sua casa. Pensei em despachá-lo e voltar para casa quando me lembrei que ele tinha oferecido maconha e de como seria tão mais agradável voltar para casa chapado. Não trabalharia na máquina, mas pelo menos dormiria bem.

            Ajudei Zacarias a entrar em sua desconfortável sala – tinha-se que arrastar a cadeira para o lado, num ângulo de quarenta e cinco graus, por conta de um sofá que ocupava toda a parede da frente, terminando um pouco além da porta, que por isso não podia se abrir por inteira. Mais tarde verifiquei que não havia motivo algum para que aquele sofá estivesse ali, já que Zacarias morava sozinho. Ofereci-me para mudar ele de posição, desatravancando o caminho, mas ele não permitiu, sem maiores explicações. Eu deixei por isso mesmo, mas minha cabeça não pôde ser impedida de imaginar que aquele sofá estava posicionado como qualquer sofá na sala de uma família do interior. Debaixo da janela da frente, com a tv na parede oposta, de forma que todos que passassem na calçada pudessem conferir a programação. Mas na casa de Zacarias a janela estava fechada e no lugar da tv, um lençol esticado sobre a parede com centenas de linhas de cores diferentes correndo de um lado para o outro.

            – O que é aquilo? – perguntei, apontando pro lençol.

            – O Universo. Com U maiúsculo.

            – Você tem o Universo na sala.

            – O meu Universo.

            – E como funciona?

            – Bem… – e ele levou sua cadeira até a parede com o lençol, e quando ficou próximo o bastante, rapidamente manobrou e se virou para mim, com um sorriso no rosto, realmente empolgado de ter alguém ouvindo. – para começar, se viu as linhas todas, saiba que não se trata de um instrumento. Não intento afinar nada, apenas explicitar a confusão.

            – Devagar com o andor…

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