VIIb Zacarias

 

-… que o santo é de barro.

            – Explico, rapazinho. Explico com gosto, que nada me satisfaz mais que compartilhar da realidade. Mas antes, dê cá um peguinha, que esse é do bom.

            Fumei apressado, engasgando no segundo tapa. A maconha andava escassa e aquela dali estava uma palha que só, mas deu pro gasto e eu pude entrar na onda dele.
– Dario, isto aqui é a prova de que o universo está desafinado.

            E ele mostrou as linhas, que eu já havia anotado, cada uma representando uma pessoa e sua trajetória ao longo de toda a vida. Sua teoria, embora amalucada, era até um tanto lógica

            Zacarias se incomoda com a leveza acidulante de Dario que parece pouco dar atenção ao que ele diz, preferindo vasculhar sua casa; um tour que Zacarias até conduziria com muito prazer, mas em outra hora, já que agora estava mais interessado em apresentar ao jovem sorrindo como um idiota os lindos caminhos de algodão que ele costurara num lençol já um pouco empoeirado, mas que ele jurava, era o universo, e foi exatamente o que eu fiz. O rapaz estava um tanto tolo, mas o fiz sentar e prestar bastante atenção no que eu tinha a dizer, que era pra que ele notasse como as linhas de diferentes cores se cruzavam sob a parte exposta do tecido – deste lado, onde primeiro depositamos o olhar, não há mais que pontos, trechos minúsculos onde a agulha brevemente atravessou o tecido – de alguma forma, todos aqueles pontos, de tantas cores diferentes, representavam um mapa de localização espacial de cada ser humano ao longo de sua vida – do ponto de vista do Universo (com U maiúsculo) não havia necessidade de precisar o que era passado, presente ou futuro. O tempo cabia somente ao outro lado do tecido, onde nós, quer dizer, as linhas que representam a mim, Zacarias, e a você, Dario, note que elas circulam muito mais do lado de lá do véu que aqui, o aqui e o agora são breves sintomas de uma existência maior. Agora, Dario, ponha cá o dedo nessa linha, e ele pôs, e puxe levemente, e ele puxou, veja como todo o painel, Zacarias havia feito com que a estrutura de pano se movesse para frente graças a um artifício de dobradiças, e Dario pôde ver como todo o painel vibrava em uníssono à linha primeira vibrada por Dario, que nessa se encantou comigo, sim senhor! O rapaz gostou da minha artimanha.

Conquanto Dario se entretinha com as possibilidades de vislumbre (pois não há controle, é impossível que se fixe uma parte do painel, privando o restante da tal vibração que traz vida e movimento ao todo do cenário), acreditando que se olhasse com atenção poderia se reconhecer, ou a um dos muitos Darios que ele andava enfiando no papel, perdido ali, transmutado em linha.

E se olhasse com atenção e se reconhecesse, talvez pudesse acompanhar com o dedo os caminhos da sua vida que estavam além do véu, onde ele cruzaria e vibraria e ressoaria nesta ou naquela vida em especial e como isso seria feliz, como eu seria feliz se pudesse identificar o momento em que minhas ações te fizeram feliz…

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