XII Donde concluo que não há história

Há um buraco na Volta do Umbigo de dona Neinha. Há lá um buraco que sonha Macuco. Na volta inteira que se cabe no buraco há um sonho a ser chocado.
Hoje amanheci com Zacarias, Pernalonga e Lagarto na minha porta. Traziam uma garrafa de dois litros de refrigerante, enrolada em jornal – chá de cogumelo colhido nas primeiras horas do dia nos pastos da Volta do Umbigo, Morro de Santos Reis e Centro. A onda resultante me inundou com uma sensação de deriva, desaguando-me nas ruas de Macuco de um jeito novo.
Quando digo que me fez desaguar, não é que eu esteja cometendo exageros, tampouco estou fazendo um gracejo simbólico para aqueles ainda afeitos a poesia. Eu estava de fato me desfazendo enquanto caminhava, primeiro abandonando os outros no meio da conversa, depois saindo calmamente, recolhendo agasalhos, porque eu me desfazia mas continuava sentindo um frio dos diabos. E agora eu já tinha andando toda a Volta do Umbigo e a rua de Seu Hugo e o Nova Macuco e me despenquei até a igreja nova, o grande templo em construção, localizada bem ao lado da ainda em uso Igreja Matriz de São João Batista.
Só com os tijolos à mostra e sem o teto, a igreja se tornou um buraco vazio, onde sentei bem no meio e me permiti costurar minhas histórias diante do céu e das estrelas em movimento. Poderia ter feito isso por horas, não fosse a chegada da minha mascarada, algo que sou incapaz de decifrar, se ocorria-me nos sonhos ou neste triste domínio que chamamos de realidade.
Ela chegou não como costumeiramente anda pelas ruas, alheia a tudo o que ocorre, mas consciente do impacto de seus passos em minha direção. Eu estava tentando esquecê-la, livrar-me dessa paixão sem sentido que me tomava todos os momentos do dia. Porque eu estava consumido pela doença do amor, apesar dos protestos de Zacarias, que tentava a todo custo me afastar das ruas e portas de bares nos momentos em que a mascarada costumava passar flanando.
Mas agora ela estava ali, silenciosamente caminhando em minha direção, se despindo por todo o átrio, revelando o corpo magro e mal cuidado, agora ponteado por estrelas – eu acendi um baseado presenteado pelo Lagarto e a observei através da segurança da fumaça: ela tirou a máscara, mantendo o rosto oculto pelos cabelos, até se aproximar de mim, quebrando o feitiço de proteção da fumaça canabinóica e, por um momento, pude sentir suas mãos sobre meus ombros, então ela me pegou gentilmente pelo pescoço e me fez olhar para cima, para o seu rosto… e, oh, as estrelas estavam todas nela.
As estrelas… eram… ela.
Não existia mais mulher por trás da máscara, o mistério desvaneceu-se de forma inesperada, não com carne e sexo, mas com o universo e um orgasmo indizível, onde nenhum amor se resolveu, mas ao menos contaminei o chão de terra da igreja com esperma e desejo, o que é mais do que muita gente pode dizer sobre o local de adoração dos seus deuses.

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